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sexta-feira, 2 de agosto de 2024

O pecado da omissão

O verbete omissão nos traz as seguintes acepções desta palavra: S.F. 1. ato ou efeito de não mencionar (algo ou alguém), de deixar de dizer, escrever ou fazer (algo). 2. ato ou efeito de deixar de lado, desprezar ou esquecer; preterição, esquecimento. Sendo assim, a omissão constitui também uma das formas de o pecado vir à lume, ao lado dos pensamentos, palavras e ações. Nossa liturgia, em uma de suas orações de confissão de pecados diz: “...pelo mal que temos feito e pelo bem que deixamos de praticar”. Isso é omissão.

Muito comum entre os cristãos, infelizmente, o pecado da omissão tem sido uma das causas de vermos tantas pessoas afastadas do Evangelho da Graça. Aqui, infelizmente, entramos numa área de extremos nos dias atuais, onde a advertência ou a simples exposição de um ponto de vista diverso passa a ser considerado como agressão ou violação às liberdades do outro. Portanto, em nome da boa vizinhança é melhor eu “deixar quieto” e ver o que acontece. No entanto, o Apóstolo Pedro chama a nossa atenção para isso. Ele diz: “Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos amedronteis, portanto, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados; antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo, porque, se for da vontade de Deus, é melhor que sofrais por praticardes o que é bom do que praticando o mal.” (I Pedro 3: 14-17) E, neste caso, praticar o mal é nos omitir. Lembremos que Pedro escreve estas palavras no contexto do primeiro século, onde havia enorme perseguição aos cristãos.

Em primeiro lugar, o Evangelho é uma boa nova e, como tal, deve ser espalhada, difundida, por quem nele acredita. Não esperemos que quem não acredita em Jesus e na sua mesagem seja dela portador. Não fomos chamados para sermos “agentes secretos” da fé, mas embaixadores de Cristo a todas as pessoas, anunciando a reconciliação de Deus com o mundo através de Jesus Cristo (II Co 5:18-20) - “Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus”. O anúncio do Evangelho pressupõe nossa crença nele como a verdade que liberta as pessoas das amarras do pecado e as conduz a uma nova vida com Cristo, deixando o Reino das trevas, numa verdadeira “operação de resgate” - “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl 1:13).

Se somos cristãos genuínos, também cremos que Jesus, o assunto central do Evangelho, é “O Caminho, A Verdade e A Vida” e que NINGUÉM vai ao Pai a não ser por Ele.(Jo 14,6). Portanto, não podemos acreditar que todos os caminhos levam a Deus. Essa é mais uma falácia religiosa do mundo moderno. Moro em Ribeirão Preto. Se quero ir para São Paulo, devo pegar a pista sul da Rodovia Anhanguera. Se eu for na direção norte, jamais chegarei a São Paulo, mas a Brasília. Estrada certa, rumo certo, destino certo. É assim que funciona. Vejamos o que diz Pedro diante do Sinédrio: “Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.” (Atos 4,11-12). Pedro diz que Jesus é a pedra rejeitada pelos construtores (religiosos). Sim, Jesus é maior do que qualquer religião, porque ele é o Caminho. E continua dizendo que salvação só existe no nome de Jesus e em nenhum outro nome – dê o nome que quiser: religião, boas obras, outros líderes religiosos… - não existe nenhum outro nome, além do nome de Jesus, que nos conduz à salvação de nossas almas.

Vejamos uma história, uma narrativa, que tem muito a nos ensinar. Muitos ao ler “o chamado de Samuel”, focam no “Eis-me aqui” ou “Fala porque teu servo ouve”, a resposta que o jovem deu a Deus. Mas o texto vai um pouco além. Nesse momento surge um “ministério paralelo” a serviço de Deus, o ministério profético, que denuncia a corrupção dos sacerdotes, dos reis e anuncia coisas duras à nação de Israel, pregando justiça, conversão e arrependimento. Samuel ouve de Deus que haveria punição para a casa do sacerdote Eli. Vejamos o que diz o Senhor: “ Naquele dia, suscitarei contra Eli tudo quanto tenho falado com respeito à sua casa; começarei e o cumprirei. Porque já lhe disse que julgarei a sua casa para sempre, pela iniquidade que ele bem conhecia, porque seus filhos se fizeram execráveis, e ele os não repreendeu.” (I Samuel 3:12,13). Os filhos de Eli se fizeram execráveis, dignos de repreensão, mas Eli não os repreendeu. Finéias e Hofni, filhos do sacerdote, não cumpriam a lei referente às ofertas apresentadas como sacrifício (I Sm 2:12-17). Eli sabia disso e não os repreendeu. Talvez pensasse “coitados dos meninos, que fardo pesado para eles”. Mas por não abrir-lhes os olhos, foram castigados. A omissão de seu pai causou-lhes a perda da Arca da Aliança para os filisteus e a morte dos dois rapazes. (I Sm 4,4).

O Apóstolo Paulo também trata desse tema tão terrível. Em Romanos 1:32 o Apóstolo dá um advertência: “Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem”. As coisas reprováveis e que poderiam afastar as pessoas de Deus aparecem nos versos 28 a 31. São consideradas como idolatria e por isso causam tanto mal espiritual aos que praticam. Mas Paulo diz que a Ira de Deus também se acende não só sobre os que as praticam, mas também àqueles que se omitem. “ Mas também aprovam os que assim procedem”...não denunciam, se omitem e, por isso, praticam os mesmos atos condenáveis por causa da sua omissão.

Outra coisa importante. A Bíblia não nos recomenda apenas a que nos afastemos do mal, mas também daquilo que tem a aparência do mal (I Ts 5:22). Apesar de termos uma liberdade sem limites, podemos todas as coisas, Cristo nos libertou para tudo, totalmente, (Romanos 8:1 e I Coríntios 6:12), isso não nos dá liberdade para a licensiosidade ou qualquer pecado. Tudo é lícito, mas nem tudo convém, nem a nós, nem aos outros a quem amamos e cabe-nos o dever de exortar, instruir, advertir.

Por fim, Efésios 5:11 nos afirma, categoricamente: “E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as.” Não ser cúmplice é não se omitir, mas profeticamente denunciar o que está errado, com amor.

Para encerrar: Irmãos e irmãs, principalmente os ministros e ministras ordenados e ordenadas, chamados ao ministério da palavra e dos sacramentos: sejamos fiéis ao Senhor e reflitamos sobre as nossas práticas. Saiamos da postura de “paz e amor” dos hippies. Almas são condenadas ao inferno todos os dias! Seguimos alguém (Jesus) que não foi condenado à morte porque era um cara legal, mas alguém que tinha compromisso com a verdade, que confrontava as pessoas com amor. Deixar as pessoas perecerem no inferno não é amor. Jesus foi morto porque queria tirar as pessoas de sua zona de conforto. Façamos o mesmo!

Falar em omissão não é algo aqui voltado apenas para uma vida de piedade e oração. Pecado não tem apenas uma esfera espiritual. De nada adianta denunciarmos os pecados contra a alma e não denunciarmos os pecados contra o corpo, os pecados sociais. Fomos chamados e chamadas para sermos profetas em nível integral. Denunciar os pecados como mentir ou praticar idolatria, mas também aqueles que destroem a dignidade das pessoas, causam fome, desemprego, subnutrição e falta de moradia. É enfrentar o Diabo nas almas e também nas estruturas sociais. Esse é o papel do Profeta. E de quanto profetismo precisamos no século XXI!

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