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segunda-feira, 27 de outubro de 2025

As 95 Teses de Martinho Lutero


 Em 31 de Outubro de 1517, Martinho Lutero afixou na porta da capela de Wittemberg 95 teses que gostaria de discutir com os teólogos católicos, as quais versavam principalmente sobre penitência, indulgências e a salvação pela fé. O evento marca o início da Reforma Protestante, de onde posteriormente veio a Igreja da Inglaterra, e representa um marco e um ponto de partida para a recuperação das sãs doutrinas.

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Movido pelo amor e pelo empenho em prol do esclarecimento da verdade discutir-se-á em Wittemberg, sob a presidência do Rev. padre Martinho Lutero, o que segue. Aqueles que não puderem estar presentes para tratarem o assunto verbalmente conosco, o poderão fazer por escrito.

Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

 

1ª Tese Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: Arrependei-vos...., certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo arrependimento.

2ª Tese E esta expressão não pode e não deve ser interpretada como referindo-se ao sacramento da penitência, isto é, à confissão e satisfação, a cargo do ofício dos sacerdotes.

3ª Tese Todavia não quer que apenas se entenda o arrependimento interno; o arrependimento interno nem mesmo é arrependimento quando não produz toda sorte de modificações da carne.

4ª Tese Assim sendo, o arrependimento e o pesar, isto é, a verdadeira penitência, perdura enquanto o homem se desagradar de si mesmo, a saber, até a entrada desta para a vida eterna.

5ª Tese O papa não quer e não pode dispensar outras penas, além das que impôs ao seu alvitre ou em acordo com os cânones, que são estatutos papais.

6ª Tese O papa não pode perdoar divida senão declarar e confirmar aquilo que Já foi perdoado por Deus; ou então faz nos casos que lhe foram reservados. Nestes casos, se desprezados, a dívida deixaria de ser em absoluto anulada ou perdoada.

7ª Tese Deus a ninguém perdoa a dívida sem que ao mesmo tempo o subordine, em sincera humildade, ao sacerdote, seu vigário.

8ª Tese Canones poenitendiales, que não as ordenanças de prescrição da maneira em que se deve confessar e expiar, apenas aio Impostas aos vivos, e, de acordo com as mesmas ordenanças, não dizem respeito aos moribundos.

9ª Tese Eis porque o Espírito Santo nos faz bem mediante o papa, excluído este de todos os seus decretos ou direitos o artigo da morte e da necessidade suprema

10ª Tese Procedem desajuizadamente e mal os sacerdotes que reservam e impõem aos moribundos poenitentias canonicas ou penitências para o purgatório a fim de ali serem cumpridas.

11ª Tese Este joio, que é o de se transformar a penitência e satisfação, Previstas pelos cânones ou estatutos, em penitência ou penas do purgatório, foi semeado quando os bispos se achavam dormindo.

12ª Tese Outrora canonicae poenae, ou sejam penitência e satisfação por pecadores cometidos eram impostos, não depois, mas antes da absolvição, com a finalidade de provar a sinceridade do arrependimento e do pesar.

13ª Tese Os moribundos tudo satisfazem com a sua morte e estão mortos para o direito canônico, sendo, portanto, dispensados, com justiça, de sua imposição.

14ª Tese Piedade ou amor Imperfeitos da parte daquele que se acha às portas da morte necessariamente resultam em grande temor; logo, quanto menor o amor, tanto maior o temor.

15ª Tese Este temor e espanto em si tão só, sem falar de outras cousas, bastam para causar o tormento e o horror do purgatório, pois que se avizinham da angústia do desespero.

16ª Tese Inferno, purgatório e céu parecem ser tão diferentes quanto o são um do outro o desespero completo, incompleto ou quase desespero e certeza.

17ª Tese Parece que assim como no purgatório diminuem a angústia e o espanto das almas, nelas também deve crescer e aumentar o amor.

18ª Tese Bem assim parece não ter sido provado, nem por boas ações e nem pela Escritura, que as almas no purgatório se encontram fora da possibilidade do mérito ou do crescimento no amor.

19ª Tese Ainda parece não ter sido provado que todas as almas do purgatório tenham certeza de sua salvação e não receiem por ela, não obstante nós termos absoluta certeza disto.

20ª Tese Por isso o papa não quer dizer e nem compreende com as palavras “perdão plenário de todas as penas” que todo o tormento é perdoado, mas as penas por ele impostas.

21ª Tese Eis porque erram os apregoadores de indulgências ao afirmarem ser o homem perdoado de todas as penas e salvo mediante a indulgência do papa.

22ª Tese Pensa com efeito, o papa nenhuma pena dispensa às almas no purgatório das que segundo os cânones da Igreja deviam ter expiado e pago na presente vida.

23ª Tese Verdade é que se houver qualquer perdão plenário das penas, este apenas será dado aos mais perfeitos, que são muito poucos.

24ª Tese Assim sendo, a maioria do povo é ludibriada com as pomposas promessas do indistinto perdão, impressionando-se o homem singelo com as penas pagas.

25ª Tese Exatamente o mesmo poder geral, que o papa tem sobre o purgatório, qualquer bispo e cura d'almas o tem no seu bispado e na sua paróquia, quer de modo especial e quer para com os seus em particular.

26ª Tese O papa faz muito bem em não conceder às almas o perdão em virtude do poder das chaves (ao qual não possui), mas pela ajuda ou em forma de intercessão.

27ª Tese Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório.

28ª Tese Certo é que no momento em que a moeda soa na caixa vêm o lucro e o amor ao dinheiro cresce e aumenta; a ajuda, porém, ou a intercessão da Igreja tão só correspondem à vontade e ao agrado de Deus.

29ª Tese E quem sabe, se todas as almas do purgatório querem ser libertadas, quando há quem diga o que sucedeu com Santo Severino e Pascoal.

30ª Tese Ninguém tem certeza da suficiência do seu arrependimento e pesar verdadeiros; muito menos certeza pode ter de haver alcançado pleno perdão dos seus pecados.

31ª Tese Tão raro como existe alguém que possui arrependimento e, pesar verdadeiros, tão raro também é aquele que verdadeiramente alcança indulgência, sendo bem poucos os que se encontram.

32ª Tese Irão para o diabo juntamente com os seus mestres aqueles que julgam obter certeza de sua salvação mediante breves de indulgência.

33ª Tese Há que acautelasse muito e ter cuidado daqueles que dizem: A indulgência do papa é a mais sublime e mais preciosa graça ou dadiva de Deus, pela qual o homem é reconciliado com Deus.

34ª Tese Tanto assim que a graça da indulgência apenas se refere à pena satisfatória estipulada por homens.

35ª Tese Ensinam de maneira ímpia quantos alegam que aqueles que querem livrar almas do purgatório ou adquirir breves de confissão não necessitam de arrependimento e pesar.

36ª Tese Todo e qualquer cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pecados, sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indulgência.

37ª Tese Todo e qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, é participante de todos os bens de Cristo e da Igreja, dádiva de Deus, mesmo sem breve de indulgência.

38ª Tese Entretanto se não deve desprezar o perdão e a distribuição por parte do papa. Pois, conforme declarei, o seu perdão constitui uma declaração do perdão divino.

39ª Tese É extremamente difícil, mesmo para os mais doutos teólogos, exaltar diante do povo ao mesmo tempo a grande riqueza da indulgência e ao contrário o verdadeiro arrependimento e pesar.

40ª Tese O verdadeiro arrependimento e pesar buscam e amam o castigo: mas a profusão da indulgência livra das penas e faz com que se as aborreça, pelo menos quando há oportunidade para isso.

41ª Tese É necessário pregar cautelosamente sobre a indulgência papal para que o homem singelo não julgue erroneamente ser a indulgência preferível às demais obras de caridade ou melhor do que elas.

42ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos, não ser pensamento e opinião do papa que a aquisição de indulgência de alguma maneira possa ser comparada com qualquer obra de caridade.

43ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos proceder melhor quem dá aos pobres ou empresta aos necessitados do que os que compram indulgências.

44ª Tese Ê que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências, porém, não se torna melhor senão mais seguro e livre da pena.

45ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que aquele que vê seu próximo padecer necessidade e a despeito disto gasta dinheiro com indulgências, não adquire indulgências do papa. mas provoca a ira de Deus.

46ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem fartura , fiquem com o necessário para a casa e de maneira nenhuma o esbanjem com indulgências.

47ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos, ser a compra de indulgências livre e não ordenada

48ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa precisa conceder mais indulgências, mais necessita de uma oração fervorosa do que de dinheiro.

49ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos, serem muito boas as indulgências do papa enquanto o homem não confiar nelas; mas muito prejudiciais quando, em conseqüência delas, se perde o temor de Deus.

50ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa tivesse conhecimento da traficância dos apregoadores de indulgências, preferiria ver a catedral de São Pedro ser reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51ª Tese Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, por dever seu, preferiria distribuir o seu dinheiro aos que em geral são despojados do dinheiro pelos apregoadores de indulgências, vendendo, se necessário fosse, a própria catedral de São Pedro.

52º Tese Comete-se injustiça contra a Palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à indulgência do que à pregação da Palavra do Senhor.

53ª Tese São inimigos de Cristo e do papa quantos por causa da prédica de indulgências proíbem a Palavra de Deus nas demais igrejas.

54ª Tese Esperar ser salvo mediante breves de indulgência é vaidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências, mesmo se o próprio papa oferecesse sua alma como garantia.

55ª Tese A intenção do papa não pode ser outra do que celebrar a indulgência, que é a causa menor, com um sino, uma pompa e uma cerimônia, enquanto o Evangelho, que é o essencial, importa ser anunciado mediante cem sinos, centenas de pompas e solenidades.

56ª Tese Os tesouros da Igreja, dos quais o papa tira e distribui as indulgências, não são bastante mencionados e nem suficientemente conhecido na Igreja de Cristo.

57ª Tese Que não são bens temporais, é evidente, porquanto muitos pregadores a estes não distribuem com facilidade, antes os ajuntam.

58ª Tese Tão pouco são os merecimentos de Cristo e dos santos, porquanto estes sempre são eficientes e, independentemente do papa, operam salvação do homem interior e a cruz, a morte e o inferno para o homem exterior.

59ª Tese São Lourenço aos pobres chamava tesouros da Igreja, mas no sentido em que a palavra era usada na sua época.

60ª Tese Afirmamos com boa razão, sem temeridade ou leviandade, que estes tesouros são as chaves da Igreja, a ela dado pelo merecimento de Cristo.

61ª Tese Evidente é que para o perdão de penas e para a absolvição em determinados casos o poder do papa por si só basta.

62ª Tese O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.

63ª Tese Este tesouro, porém, é muito desprezado e odiado, porquanto faz com que os primeiros sejam os últimos.

64ª Tese Enquanto isso o tesouro das indulgências é sabiamente o mais apreciado, porquanto faz com que os últimos sejam os primeiros.

65ª Tese Por essa razão os tesouros evangélicos outrora foram as redes com que se apanhavam os ricos e abastados.

66ª Tese Os tesouros das indulgências, porém, são as redes com que hoje se apanham as riquezas dos homens.

67ª Tese As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como a mais sublime graça decerto assim são consideradas porque lhes trazem grandes proventos.

68ª Tese Nem por isso semelhante indigência não deixa de ser a mais Intima graça comparada com a graça de Deus e a piedade da cruz.

69ª Tese Os bispos e os sacerdotes são obrigados a receber os comissários das indulgências apostólicas com toda a reverência-

70ª Tese Entretanto têm muito maior dever de conservar abertos olhos e ouvidos, para que estes comissários, em vez de cumprirem as ordens recebidas do papa, não preguem os seus próprios sonhos.

71ª Tese Aquele, porém, que se insurgir contra as palavras insolentes e arrogantes dos apregoadores de indulgências, seja abençoado.

72ª Tese Quem levanta a sua voz contra a verdade das indulgências papais é excomungado e maldito.

73ª Tese Da mesma maneira em que o papa usa de justiça ao fulminar com a excomunhão aos que em prejuízo do comércio de indulgências procedem astuciosamente.

74ª Tese Muito mais deseja atingir com o desfavor e a excomunhão àqueles que, sob o pretexto de indulgência, prejudiquem a santa caridade e a verdade pela sua maneira de agir.

75ª Tese Considerar as indulgências do papa tão poderosas, a ponto de poderem absolver alguém dos pecados, mesmo que (cousa impossível) tivesse desonrado a mãe de Deus, significa ser demente.

78 ª Tese Bem ao contrario, afirmamos que a indulgência do papa nem mesmo o menor pecado venial pode anular o que diz respeito à culpa que constitui.

77ª Tese Dizer que mesmo São Pedro, se agora fosse papa, não poderia dispensar maior indulgência, significa blasfemar S. Pedro e o papa.

78ª Tese Em contrario dizemos que o atual papa, e todos os que o sucederam, é detentor de muito maior indulgência, isto é, o Evangelho, as virtudes o dom de curar, etc., de acordo com o que diz 1Coríntios 12.

79ª Tese Afirmar ter a cruz de indulgências adornada com as armas do papa e colocada na igreja tanto valor como a própria cruz de Cristo, é blasfêmia.

80ª Tese Os bispos, padres e teólogos que consentem em semelhante linguagem diante do povo, terão de prestar contas deste procedimento.

81ª Tese Semelhante pregação, a enaltecer atrevida e insolentemente a Indulgência, faz com que mesmo a homens doutos é difícil proteger a devida reverência ao papa contra a maledicência e as fortes objeções dos leigos.

82 ª Tese Eis um exemplo: Por que o papa não tira duma só vez todas as almas do purgatório, movido por santíssima' caridade e em face da mais premente necessidade das almas, que seria justíssimo motivo para tanto, quando em troca de vil dinheiro para a construção da catedral de S. Pedro, livra um sem número de almas, logo por motivo bastante Insignificante?

83ª Tese Outrossim: Por que continuam as exéquias e missas de ano em sufrágio das almas dos defuntos e não se devolve o dinheiro recebido para o mesmo fim ou não se permite os doadores busquem de novo os benefícios ou pretendas oferecidos em favor dos mortos, visto' ser Injusto continuar a rezar pelos já resgatados?

84ª Tese Ainda: Que nova piedade de Deus e dó papa é esta, que permite a um ímpio e inimigo resgatar uma alma piedosa e agradável a Deus por amor ao dinheiro e não resgatar esta mesma alma piedosa e querida de sua grande necessidade por livre amor e sem paga?

85ª Tese Ainda: Por que os cânones de penitencia, que, de fato, faz muito caducaram e morreram pelo desuso, tornam a ser resgatados mediante dinheiro em forma de indulgência como se continuassem bem vivos e em vigor?

86ª Tese Ainda: Por que o papa, cuja fortuna hoje é mais principesca do que a de qualquer Credo, não prefere edificar a catedral de S. Pedro de seu próprio bolso em vez de o fazer com o dinheiro de fiéis pobres?

87ª Tese Ainda: Quê ou que parte concede o papa do dinheiro proveniente de indulgências aos que pela penitência completa assiste o direito à indulgência plenária?

88ª Tese Afinal: Que maior bem poderia receber a Igreja, se o papa, como Já O faz, cem vezes ao dia, concedesse a cada fiel semelhante dispensa e participação da indulgência a título gratuito.

89ª Tese Visto o papa visar mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que revoga os breves de indulgência outrora por ele concedidos, aos quais atribuía as mesmas virtudes?

90ª Tese Refutar estes argumentos sagazes dos leigos pelo uso da força e não mediante argumentos da lógica, significa entregar a Igreja e o papa a zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.

91ª Tese Se a Indulgência fosse apregoada segundo o espírito e sentido do papa, aqueles receios seriam facilmente desfeitos, nem mesmo teriam surgido.

92ª Tese Fora, pois, com todos estes profetas que dizem ao povo de Cristo: Paz! Paz! e não há Paz.

93ª Tese Abençoados sejam, porém, todos os profetas que dizem à grei de Cristo: Cruz! Cruz! e não há cruz.

94ª Tese Admoestem-se os cristãos a que se empenhem em seguir sua Cabeça Cristo através do padecimento, morte e inferno.

95ª Tese E assim esperem mais entrar no Reino dos céus através de muitas tribulações do que facilitados diante de consolações infundadas


domingo, 26 de outubro de 2025

A respeito dos 508 anos da Reforma Protestante

 


Longe de ser apenas uma data a ser lembrada pelos cristãos de tradição reformada, o dia 31 de outubro é importante como memória de coragem e fé. Nesse dia, em 1517, Martinho Lutero publicava as suas 95 teses nas portas da Catedral de Wittenberg, na Alemanha. Deve ficar claro que Lutero não fez algo incomum: toda discussão acadêmica naquela época se iniciava assim. E é importante lembrar também que as 95 teses foram dedicadas ao Papa, pois Lutero nunca intencionou fundar uma nova Igreja.

Os apelos por uma Reforma na Igreja Ocidental eram antigos. Desde o século XII, pelo menos, esse desejo era comum, principalmente àqueles que não tinham privilégios, não pertenciam à nobreza ou ao alto clero – para estes, a situação era extremamente confortável. Mas o povo e a burguesia emergente queriam reformas amplas...e alguns monarcas queriam se ver livres da influência papal.

A Reforma foi, evidentemente, um movimento religioso, porém foi mais que isso, foi também uma reforma política, econômica e cultural.

O movimento inicado em 1517 foi uma reforma política. Lembremos que Lutero foi o primeiro homem da História que “viralizou”, graças à invenção da prensa de tipos móveis no século XV, pelo também alemão Johannes Gutemberg. Graças à imprensa, as ideia de Lutero se espalharam como fogo em pólvora e muitos reis e príncipes viam nessas ideias a oportunidade de se livrar do poder temporal do papa, das taxações, subserviências e das mal-fadadas indulgências, o verdadeiro estopim da Reforma e das teses luteranas. Muitos governantes, influenciados pelos ideais humanistas e pelo nascente nacionalismo que surgira na Europa (lembremos que pouco antes, os feudos cederam espaço ao Estado Nacional e o poder foi centralizado nas mãos dos reis). Os reis queriam influenciar, por exemplo, a escolha dos bispos e outros prelados nos seus domínios. Romper com a Igreja de Roma era necessário para estas concepções fossem levadas a cabo.

Foi a Reforma, ainda, um movimento econômico. Com o surgimento da classe social burguesa, elementos medievais como a condenação da usura e a obtenção de lucro tinham que ser abandonados. Neste novo mundo, a economia feudal de subsistência desaparece, surgindo em seu lugar uma economia de mercado, a circulação de moeda e a ressurreição do comércio. Este novo mundo precisava de apoio também da Igreja para que pudesse se consolidar.

E, por fim, a Reforma foi também um movimento cultural. A tradução da Bíblia para as línguas modernas era um passo para o surgimento de escolas e a erradicação do analfabetismo. Estudar para “vencer na vida” é um conceito protestante. O canto coral e congregacional, com melodias mais populares, eram um dispositivo eficaz na dispersão da “nova” fé protestante. As doutrinas iam ao cérebro, os hinos, ao coração. Graças à Reforma surgem ideias consideradas hoje como Direitos Humanos, como a defesa da liberdade de opinião e expressão, liberdade de crença e liberdade de associação, por exemplo. Nos países protestantes – os do centro-norte da Europa – incentivam-se as artes e a pesquisa científica, ao contrário dos redutos romanistas mais ao sul, com a infliência perniciosa dos dominicanos e da nascente Companhia de Jesus, os jesuítas, pregadores estes do obscurantismo intelectual.

A Reforma, portanto, ultrapassou o limites da religião. Mas fica uma pergunta: O QUE NÓS, HERDEIROS DESSE MOVIMENTO, PODEMOS FAZER HOJE?

Primeiro, devemos sempre nos lembrar do princípio que a Igreja Reformada vai sempre se reformando. Não podemos parar no tempo. Os desafios do mundo contemporâneo invadem a Igreja e clamam pela justiça de Deus: fome, ansiedade, depressão, fundamentalismo, machismo, homofobia, racismo, etarismo, capacitismo, intolerância religiosa...como reformados temos que ser relevantes aos apelos das pessoas, hoje. Mantemos nossos olhos e corações no passado, mas devemos ter um pé no século XVI, e outro, no século XXI.

Segundo, devemos nos lembrar que com coragem podemos mudar o mundo. Lutero prosseguiu depois com a defesa de suas ideias, correndo risco de morte em muitas situações. Mas ele e seus companheiros mudaram a realidade ao seu redor, influenciando grandes filósofos, cientistas, políticos e outros reformadores além dos limites da Alemanha.

Por fim, devemos restaurar a verdadeira interpretação de alguns conceitos da Reforma:

(a) “Livre exame das Escrituras” não é sinônimo, como alguns pensam, de livre interpretação. Toda interpretação de texto tem limites, não há interpretações infinitas;

(b) O “Sacerdócio Universal de todos os crentes” deve se expressar na luta contra o clericalismo e a subserviência a pastores que agem mais como lobos devoradores;

(c) “Sola Scriptura” não pressupõe o abandono da racionalidade e o consenso dos fiéis no decorrer dos séculos. A Bíblia é a Palavra escrita de Deus, mas Jesus Cristo é a Palavra encarnada;

e (d) o Protestantismo deve buscar em Deus também um genuíno avivamento, ou seja, temos que ser fiéis à doutrina, mas precisamos muito mais amar as pessoas e considerá-las mais importantes do que a letra que mata.

Que Deus nos ajude a sermos instrumentos de sua Graça e misericórdia. Nunca nos esqueçamos de que, em Cristo e na sua cruz, mensagem central do Protestantismo, a Justiça de Deus, se revela como Amor. Amor sacrificial, amor que se doa, amor que acolhe a todos e todas.

Dom Virgilio Cezar Henrique Pereira Torres
Bispo do Sínodo do Brasil
Igreja Anglicana Unida - Província da América do Sul



segunda-feira, 9 de junho de 2025

Mensagem Pastoral de Pentecostes - 2025

Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo!

Domingo, 08 de junho, é dia de Pentecostes. Aniversário da Igreja de Jesus Cristo.

Celebramos este dia com alegria, sempre lembrando que no Natal temos DEUS CONOSCO; na Páscoa, temos DEUS POR NÓS; no Pentecostes temos DEUS EM NÓS. E isso nos enche de uma santa responsabilidade, tremenda. A presença de Deus em nossos corações, através do Espírito Santo não pode ser para nós motivo de vaidade – temos poder! – mas uma reflexão – poder para quê? -  e uma grande missão – poder para testemunhar.

Muitos querem o poder do Espírito Santo para serem grandes. Mas o Espírito, quando opera em nós deve nos fazer pequenos, os menores entre os irmãos. João Batista, um homem repleto do Espírito Santo disse a respeito de Cristo: “Convém que Ele cresça e que eu, diminua”. Somos e devemos ser sempre apenas instrumentos nas mãos de Deus, pois a obra é dele e não nossa. Somos chamados, como Cristo a servir, e não a ser servidos.

Precisamos lembrar de que o poder que o Espírito Santo nos concede (cf. Atos 1,8) é poder para ser testemunhas (martyus, no original), de onde vem a palavra mártir. O Espírito Santo nos capacita a podermos dar a nossa vida pela verdade do Evangelho num mundo relativista e cheio de situações que contrapõem o Evangelho da Graça. É muito difícil para nós, no meio de uma sociedade pós-cristã e materialista sermos fiéis a Deus e ao Evangelho. Sozinhos não conseguimos.

O Espírito Santo em nós não é para a expressão de uma espiritualidade vazia e sem propósito. São Paulo repreende severamente a Igreja de Corinto, a qual tinha muitos dons, mas era igreja mais problemática e “carnal” do Novo Testamento. Temos visto a instrumentalização do Espírito Santo para promover pastores e líderes, mas não apontar para Cristo. Temos visto muita gente “falando em línguas” – diferente do fenômeno de Atos 2 – querendo mostrar espiritualidade, mas imerso na carnalidade mais bruta e primitiva, comendo sem moderação, pensando apenas em riqueza e prosperidade material e em ser admirado e seguido nas redes. “Que tempos! Que costumes”, diriam os romanos.

O Espírito Santo está em nós para colocarmos a mão na massa. Isto significa construir uma sociedade mais justa e fraterna, onde nós vejamos Cristo no outro. Precisamos deixar de lado essa ideia de poder explosivo e pensarmos que Deus opera não no atacado, com grandes realizações, mas no varejo, em pequenas e singelas coisas. “Cuidar dos órfãos e das viúvas e manter-se incontaminado do mundo”, segundo São Tiago, é a verdadeira religião. Isso significa que precisamos da força do Espírito Santo quando o cheiro do meu próximo me incomoda, quando seu padrão de higiene não é dos melhores, quando ele vive de modo diferente do meu, quando ele tem fome e eu abundância, mas tenho o desejo de repartir, quando ele é escravizado pelo sistema e eu anuncio a libertação. Manter-se incontaminado do mundo, hoje, significa que não temos que viver em competição o tempo todo, querendo provar que somos melhores, mas simplesmente fazendo o que precisa ser feito. Significa que não podemos desistir do SER em nome do TER, ou que devemos sempre nos adequar ao que parece comum e aceitável numa sociedade onde o que certo parece errado e o errado é tido como certo.

O grande poder do Espírito Santo em nós é nos dar a capacidade de amar. Amar a Deus sobre todas as coisas, com toda alma, com todo entendimento e com todas as forças – colocando em ordem Deus – família – igreja – eu – o próximo. Esse amor não é apenas um sentimento, mas uma capacidade de servir sempre e a todos, cuidando do próprio coração também, daí amar ao próximo como a si mesmo.

Num mundo de ansiedade, depressão, fakenews, flashes, curtidas e cancelamentos, o Espírito Santo nos habilita a sermos diferentes e a fazermos diferença. Somos chamados e chamadas para levar vida, paz, amor e santidade a este mundo doente. O Espírito Santo nos ajuda a usarmos as redes sociais, por exemplo, para algo mais, para evangelizar e cuidar das pessoas. Esta tarefa não é apenas dos pastores – Bispos, Presbíteros e Diáconos – mas de todo o povo de Deus. Paremos de perder tempo nas redes e falemos de Cristo, de Paz, de amor, de compromisso com o outro. Num mundo onde as pessoas são coisificadas e as coisas valem mais do que as pessoas, sejamos emissários da velha-boa nova do Evangelho.

Guerras, fomes, desastres naturais, destruição da natureza, preconceitos, perseguições só serão vencidas se o Espírito Santo agir em nós, cristãos, e agir por nós. Ele nos capacita a sermos respostas de Deus para problemas concretos na vida cotidiana. Sozinhos, somos incapazes.

Que estejamos abertos a seu agir em nós e por nós para curar este mundo doente. Que estejamos dispostos a trabalhar por um mundo melhor para todos e todas, não apenas para alguns privilegiados. Que o Espírito Santo nos dê coragem para testemunhar Cristo alegria e singeleza de coração. Que o Espírito Santo nos faça mais cristãos, mais parecidos com o Cristo a quem seguimos.

Rev. Con. Virgilio Cezar Henrique Pereira Torres

Bispo-eleito e Presidente da Igreja Episcopal Protestante

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Uma Bispa e um Gigante...a história se repete

 
Quando a narrativa bíblica conta a história de Davi e de Golias, as crianças vibram com a história do pequeno Davi contra o Gigante. Não foi a força que venceu, foi a sabedoria do menino. Humanamente, era impossível que aquilo acontecesse, mas o rapaz Davi venceu. Jogou a pedra com a funda na cabeça do gigante e o derrubou. Mas, ao contrário do que muitos pensam, Davi não matou o gigante com a funda, mas com a espada do próprio gigante (I Sm 17, 50-51: Assim, prevaleceu Davi contra o filisteu, com uma funda e com uma pedra, e o feriu, e o matou; porém não havia espada na mão de Davi. Pelo que correu Davi, e, lançando-se sobre o filisteu, tomou-lhe a espada, e desembainhou-a, e o matou, cortando-lhe com ela a cabeça. Vendo os filisteus que era morto o seu herói, fugiram).

Esta semana, na posse de Donald Trump, o Golias dos tempos atuais, uma pequena Davi, A Revma. Mariann Budde, Bispa da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, jogou uma pedra na testa do gigante. Ela defendeu gays, imigrantes, pobres contra o ataque sem piedade dele contra essas pessoas. Seu sermão foi uma "rajada de Glória" como dizem nossos irmãos pentecostais, pois ela acertou um alvo que, com suas ações e palavras, agride as pessoas, o bom senso e toda e qualquer forma de humanidade. Para aquele homem, governar não é administrar conflitos, mas criá-los. Mas Deus estava ali, na Catedral Nacional de Washington e pela boca daquela Davi dos dias atuais jogou a pedra na testa de Trump.

E ela se mantém corajosa, dizendo que não retira nada do que disse, que Trump merecia e precisava ouvir aquela mensagem. E agora?

Cabe a nós, vozes progressistas, principalmente entre os cristãos, sermos a espada nas mãos de Davi! Com nossas ações corajosas, nossa luta pelos direitos humanos, nosso exercício de misericórdia para com as minorias, os desvalidos, os pobres de Deus, cabe a nós sermos a espada nas mãos de Davi. Precisamos mostrar a ele e a seus seguidores, admiradores, que ainda existe uma resistência, que ultrapassa a escravidão ao Capital, cabe a nós mostrar, com palavras e ações, com reflexão e oração, que as pessoas são mais importantes que as coisas, que ser é mais importante do que ter, e que devemos amar incondicionalmente os que sofrem qualquer tipo de ultraje. O mundo precisa de nossa voz, de nosso posicionamento claro.

Trump, faço nossas as palavras do Davizinho: "Saberá toda esta multidão que o Senhor salva, não com espada, nem com lança; porque do Senhor é a guerra, e ele vos entregará nas nossas mãos"(I sm 17, 47).

Que Deus nos ajude!

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

A Liturgia Anglicana não é igual à Missa Romana

 

        Hoje, é comum encontrarmos em sites de algumas igrejas anglicanas da linha “anglo-católica” (na verdade, pseudoromanistas), a designação genérica de MISSA para as atividades litúrgico-pastorais, nos momentos cúlticos destas comunidades, como se a Liturgia Anglicana e a Missa Romana fossem a mesma coisa. E não são. Primeiro é importante lembrar que “anglo-católicos” não são católicos romanos disfarçados. Quem afirma o contrário disso está sendo, no minimo, leviano. Muito anglo-católicos, inclusive, são antipapistas e antiromanistas. Valorizar elementos da Tradição católica não é, de modo algum, ser um papista. O grande e grave problema é copiar descaradamente as práticas e a teologia romana, um significativo e verdadeiro plágio.

Neste pequeno texto vamos analisar por que é imprópria essa comparação entre a Missa Romana para a designação da Liturgia Anglicana, sob os aspectos históricos, doutrinários e teológicos. Como professor de Liturgia Anglicana, não posso me calar diante da confusão que muitos provocam no uso destas terminologias indevidas, principalmente pelo fato de que aqueles que procuram o Anglicanismo o façam de modo a pensar encontrar uma igreja “católica” no sentido impróprio, no sentido em que não somos.

Somos católicos, não restam dúvidas. É plenamente possível ser católico sem ser romano. Somos católicos por três motivos. Primeiro, porque a única Igreja que existe na face da terra é a Igreja UNA, SANTA, CATÓLICA E APOSTÓLICA, formada por todos aqueles e aquelas que foram salvos por Jesus Cristo e, por isso, são chamados cristãos. Católico significa Universal, de todos os povos, em todos os tempos, para todas as pessoas. O problema é a associação que se faz entre a designação “católico” e a confusão com o Romanismo, este sim, ligado ao Papa e ao seu séquito. Somos católicos porque a Igreja da Inglaterra, da qual descendemos os anglicanos, não é uma igreja nova, surgida da vontade de Henrique VIII ou dos seus sucessores protestantes, Eduardo VI e Elizabeth I. O que houve foi REFORMA, não refundação. Rompeu-se com a instituição romana, não com a Igreja Católica. Rompeu-se com o Papa, não com a Fé da Igreja Cristã. A Igreja da Inglaterra e todos os anglicanos descendem historicamente da Igreja Celta, que tinha uma tradição paralela com a Igreja Romana, assim como a Igreja Ortodoxa. Por isso, Henrique VIII não fundou nada.

Segundo, somos católicos porque cremos nos Credos Históricos (Apostólico, Niceno e Atanasiano), cuja fé expressada é a Fé da “Igreja Indivisa” – uma Bíblia, Dois Testamentos, Três Credos, Quatro Concílios, Cinco Séculos. A fé expressa aqui é a Fé Católica e nela cremos. É a fé dos Apóstolos, dos Mártires, dos Pais da Igreja.

Terceiro, porque cremos que a Fé é guardada e transmitida de geração em geração pela ação do Espírito Santo nas Escrituras, na Tradição (Consenso dos fiéis, ministério dos Bispos como guardiões da Fé) e na Razão. É a fé de ontem, de hoje e de sempre. No dizer de São Vicente de Lerins: “Ortodoxia é aquilo que foi crido em toda parte, sempre e por todos. Diante disso não se deve permitir que o pragmatismo teológico afaste a igreja das Escrituras e do ensino que foi crido em toda parte sempre e por todos os cristãos”.

No entanto, o Arcebispo Thomas Cranmer, verdadeiro reformador da Inglaterra, quis dar à Igreja uma feição reformada clara e abolir da prática cristã aquilo que era considerado abuso ou superstição. Ele mesmo afirma no prefácio do Primeiro Livro de Oração em Comum, 1549: “ com o transcorrer dos muitos anos, esta disposição piedosa e decorosa dos pais primitivos foi de tal maneira alterada, violada e esquecida, com a semeadura de histórias incertas, lendas, responsórios, versículos, repetições vãs, comemorações e cânones sinodais, que comumente quando se começava a leitura de qualquer livro da Bíblia, antes de se lerem três ou quatro capítulos, todos os demais ficavam sem serem lidos”. E qual a base que ele usou? Como todos os reformadores do século XVI, a base era a Bíblia Sagrada, única fonte e autoridade da fé e prática dos cristãos. Essa afirmação está presente em todas as confissões de fé protestantes e também nos 39 artigos de religião (Artigo VI). Aliás, foi o distanciamento desses pseudo-romanistas dos 39 artigos e a simples adoção do breve “Quadrilátero de Lambeth” que gerou toda a confusão que temos hoje e que ora serve de base para a lavra deste artigo.

O chamado “Quadrilátero de Lambeth” é um resumo de fé, não uma confissão de fé. Ele pode ser adotado pelos anglicanos? Com certeza, já que coloca os pontos principais que caracterizam uma Igreja Anglicana: A Bíblia, Os Credos, Os Sacramentos e o Episcopado. Mas são estes artigos tão vagos que poderiam identificar uma centena de Igrejas ou Comunhões além dos anglicanos.

O que dizem os 39 artigos sobre esse assunto? Em primeiro lugar, analisemos o artigo XIX, que diz:

A Igreja visível de Cristo é uma congregação de fiéis, na qual é pregada a pura Palavra de Deus, e são devidamente administrados os Sacramentos conforme à Instituição de Cristo em todas as coisas que necessariamente se requerem neles. Assim como a Igreja de Jerusalém, de Alexandria, e de Antioquia erraram; assim também a Igreja de Roma errou, não só quanto às suas práticas, ritos e cerimônias, mas também em matéria de fé”.

Vejamos: a Igreja de Roma errou em matéria de fé e errou em matéria de Liturgia. Isso, peremptoriamente, reforça a ideia de que a Liturgia Anglicana NÃO é a Missa Romana. Por quê? Continuemos a nossa análise: “A Igreja visível de Cristo é uma congregação de fiéis, na qual é pregada a pura Palavra de Deus...”. O que vemos na Missa Romana? Idolatria, culto aos santos e às imagens, orações pelos mortos, a doutrina da transubstanciação, tudo isso contrário à pura palavra de Deus – e claramente denunciado nos 39 Artigos de Religião! Além disso, continua o artigo: “...e são devidamente administrados os Sacramentos conforme à Instituição de Cristo em todas as coisas que necessariamente se requerem neles”. Ou seja, também a ministração dos sacramentos deve estar em conformidade com o que Cristo realizou. Não cremos no batismo infantil como regeneração batismal, nem na transubstanciação como resultado da consagração do pão e do vinho na Ceia do Senhor. Não, a Liturgia Anglicana NÃO é igual à MISSA Romana.

Continuando nos 39 artigos, leiamos o artigo XXV:

Os Sacramentos instituídos por Cristo não são unicamente designações ou indícios da profissão dos Cristãos, mas antes testemunhos certos e firmes, e sinais eficazes da graça, e da boa vontade de Deus para conosco pelos quais ele opera invisivelmente em nós, e não só vivifica, mas também fortalece e confirma a nossa fé nele. São dois os Sacramentos instituídos por Cristo nosso Senhor no Evangelho, isto é, o Batismo e a Ceia do Senhor. Os cinco vulgarmente chamados Sacramentos, isto é, Confirmação, Penitência, Ordens, Matrimônio, e Extrema Unção, não devem ser contados como Sacramento do Evangelho, tendo em parte emanado duma viciosa imitação dos Apóstolos, e sendo em parte estados de vida aprovados nas Escrituras; não tem, contudo, a mesma natureza de Sacramentos peculiar ao Batismo e à Ceia do Senhor, porque não tem sinal algum visível ou cerimônia instituída por Deus. Os Sacramentos não foram instituídos por Cristo para servirem de espetáculo, ou serem levados em procissão, mas sim para devidamente os utilizarmos. E só nas pessoas que dignamente os recebem é que produzem um saudável efeito ou operação; mas os que indignamente os recebem adquirem para si mesmos a condenação, como diz São Paulo.

Procissão do Santíssimo Sacramento? Essa prática é romanista, não anglicana. Porém, já vi pseudo-anglicanos, que gostam de usar uma palavra que tem sido erroneamente utilizada, “ethos”, fazendo procissão do Santíssimo Sacramento. Absurdo chamar essa prática de anglicana.

Vejamos mais um artigo, o XXVIII:

A Ceia do Senhor não só é um sinal de mútuo amor que os cristãos devem ter uns para com os outros; mas antes é um Sacramento da nossa Redenção pela morte de Cristo, de sorte que para os que devida e dignamente, e com fé o recebem, o Pão que partimos é uma participação do Corpo de Cristo; e de igual modo o Cálice de Bênção é uma participação do Sangue de Cristo. A Transubstanciação (ou mudança da substância do Pão e Vinho) na Ceia do Senhor, não se pode provar pela Escritura Sagrada; mas antes repugna às palavras terminantes da Escritura, subverte a natureza do Sacramento, e tem dado ocasião a muitas superstições. O Corpo de Cristo é dado, tomado, e comido na Ceia, somente dum modo celeste e espiritual. E o meio pelo qual o Corpo de Cristo é recebido e comido na Ceia é a Fé. O Sacramento da Ceia do Senhor não foi pela ordenança de Cristo reservado, nem levado em procissão, nem elevado, nem adorado”.

Aqui seremos mais minuciosos. A Ceia do Senhor é um sacramento: participamos da bênção do Corpo e Sangue de Cristo pela fé. Um sacramento, por definição, é um sinal, um símbolo, ele não é a realidade que simboliza. Os 39 artigos reforçam a ideia reformada do Memorial, aliada à noção do recepcionismo, ou seja, da lembrança da morte e ressurreição do Senhor até que Ele venha e a comunhão do Corpo de snague de Cristo quando os recebo com fé. Além disso, há aqui a condenação clara de atitudes romanistas na Liturgia. Não há aqui a permissão para a reserva eucarística, prática medieval que tinha por finalidade apenas levar a comunhão aos presos e doentes e que degenerou na adoração, elevação, procissão e adoração da mesma. Na mobília de uma igreja anglicana não há lugar para um “sacrário”.

O artigo XXXI continua com a condenação da Liturgia Romana:

A oblação de Cristo uma só vez consumada é a perfeita redenção, propiciação, e satisfação por todos os pecados, tanto originais como atuais, do mundo inteiro; e não há nenhuma outra satisfação pelos pecados, senão esta unicamente. Portanto os sacrifícios das Missas, nos quais vulgarmente se dizia que o Sacerdote oferecia Cristo para a remissão da pena ou culpa, pelos vivos ou mortos, são fábulas blasfemas e enganos perigosos”.

Na Missa romana, acredita-se na renovação, na repetição do sacrifício do Calvário. Veja o que diz este texto, romanista, a respeito da MISSA:

"1) O que é a Missa?A missa é o sacrifício da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo que se realiza sobre o altar.

2) Como pode ser a Missa o sacrifício de Jesus se este morreu na Cruz há dois mil anos? Pelo rito da Santa Missa, o mesmo sacrifício realizado há dois mil anos torna-se presente novamente, de um modo novo, um modo sacramental, ritual, incruento, ou seja, sem derramamento do Sangue, mas verdadeiro e eficaz.

3) Porque dizemos que a missa é o mesmo sacrifício, presente de modo sacramental?Por que nela aquele mesmo sacrifício de Jesus se apresenta diante de nós através de sinais sensíveis que realizam a graça sacramental. Estes sinais, no caso da missa são as espécies consagradas, o pão e o vinho que, na consagração, se transformam no Corpo e Sangue de Jesus pelas palavras que o sacerdote pronuncia." (http://www.capela.org.br/Missa/manual.htm) .

Isso é MUITO diferente do que dizem os Artigos de Religião. Os anglicanos creem que o sacrifício de Cristo é único, perfeito e suficiente. Não fazemos o sacrifício de novo, e de novo e de novo a cada celebração. Oferecemos a Deus o sacrifício de nós mesmos, conforme Romanos 12:1-2. Foi por isso, que começou-se a exigir a remoção dos altares de pedra na Inglaterra após a Reforma. O bispo Ridley lançou a campanha em maio de 1550, quando ordenou que todos os altares fossem substituídos por mesas de comunhão de madeira em sua diocese de Londres. Outros bispos em todo o país seguiram seu exemplo, mas também houve resistência. Em novembro de 1550, o Conselho Privado ordenou a remoção de todos os altares em um esforço para acabar com todas as disputas. Enquanto o livro de orações (1549) usava o termo "altar", a maioria dos bispos preferia uma mesa de madeira porque na Última Ceia Cristo instituiu o sacramento em uma mesa. A remoção dos altares também foi uma tentativa de destruir a ideia de que a Eucaristia era o sacrifício de Cristo. Durante a Quaresma em 1550, John Hooper pregou: "enquanto os altares permanecerem, tanto o povo ignorante quanto o padre ignorante e mal-intencionado sonharão sempre com o sacrifício". Como não há sacrifício, não há um sacerdócio no sentido romano do termo.

Pensemos um pouco: Por que o Arcebispo Cranmer foi queimado por heresia? O que o levou à condenação? Porque Latimer e Ridley, outros bispos e mártires, foram alvo da perseguição e condenação pela Rainha romanista Mary, a sanguinária, filha de Henrique VIII com Catarina de Aragão e que sucedeu Eduardo VI? Eles eram contrários aos princípios da Igreja Romana, e inclusive, de sua Liturgia. Isso digo como teólogo e com estudioso de História, para quem contra fatos não há argumentos.

No Prefácio do primeiro Livro de Oração em Comum (1549), Cranmer diz que a grande necessidade das pessoas não era ritual, era a Leitura diária da Palavra de Deus para a edificação dos fiéis. “A leitura e ensino da Palavra de Deus foi a característica mais evidente do Livro de Oração em Comum de Cranmer e este sem duvida definiu a característica do Anglicanismo. No Prefácio do Livro de Oração, ele escreveu que era consciente da importância de voltar a costume dos ‘Pais antigos’ da Igreja,

que toda a Bíblia fosse lida uma vez a cada ano…’ que tanto o clero como o povo deve buscar a piedade e ‘dando frutos cada vez mais no conhecimento de Deus, e sendo cada vez mais inflamados com o amor da Religião verdadeira.’ Desde o princípio do Anglicanismo, a Igreja da Inglaterra colocou o maior ênfase possível no ensino e instrução.(...)

Contudo, em todo o mundo, a maioria dos Anglicanos estão firmes mantendo a ênfase “Protestante” no ensino e pregação da Bíblia, nas doutrinas reformadas da fé como são expressadas nos Artigos, e a supremacia da Escritura pra ensinar e guiar em todas as matérias.

Como Hooker, muitos Anglicanos, consideram as Escrituras como a autoridade final em todas as matérias, e tradição e razão como instrumentos ao nosso serviço pra entender as Escrituras; não como donos que tem autoridade sobre as Escrituras ou parceiros que tem a mesma autoridade que as Escrituras. Historicamente e teologicamente, a característica que define o Anglicanismo é sua doutrina Protestante e Reformada, que reflete os ensinos da Bíblia” (Robin G. Jordan).

Isso NÃO é Missa romana, nem romanismo!

Em abril de 1552, o Parlamento aprovou a Segunda Lei da uniformidade do culto e determinou o uso de um novo LOC a partir do Dia de Todos os Santos. Comparado com o primeiro LOC, este foi mais “protestante”, eliminando os usos das expressões como Missa, Altar, Sacrifício e enfatizou a Igreja inglesa como Igreja Nacional. Também proibiu os costumes, gestos, paramentos e ornamentação no altar ligados à Igreja Romana. Isso tudo foi ratificado, confirmado, no LOC de 1662. Sendo assim, não existe missa anglicana no sentido de ser uma espécie de Missa Romana. Não realizamos sacrifício, por isso não temos Altar, mas a Mesa da Comunhão ou Mesa do Senhor. Por isso, os clérigos não são sacerdotes no sentido romano, mas Ministros, sendo sacerdotes apenas no contexto de que somos um povo de sacerdotes (Sacerdócio Universal de todos os Crentes).

Deve-se notar também que a Liturgia da Santa Comunhão não era uma prática dominical no Anglicanismo primitivo. Isso é uma prática bem recente, surgida no século XIX. Se não, vejamos: por que o LOC de 1662, logo após a Ordem da Santa Comunhão, traz fórmulas para que o Ministro avise o povo sobre a celebração? Se fosse uma prática cotidiana, rotineira, não haveria necessidade de aviso prévio, haveria?

Sobre isso também afirma James White:

A história de sucesso na oração pública diária da Reforma aconteceu na Igreja da Inglaterra. O arcebispo Thomas Cranmer, principal arquiteto do Livro de Oração Comum de 1549 e 1552, estava familiarizado com o trabalho dos reformadores do continente e do cardeal Quiñones. Ele combinou matinas, laudes e prima do Sarum Breviary medieval inglês em "Matinas", ao passo que vésperas e completas foram condensadas no "Evensong". Na edição de 1552, as designações passaram a ser "Oração da Manhã" e "Oração da Noite". As horas do meio-dia desapareceram totalmente. Cranmer esclareceu seu objetivo no "Prefácio", onde ocasionalmente até usou as palavras de Quiñones. Ele esperava "que as pessoas (pelo ouvir diário da Sagrada Escritura lida nas igrejas) haveriam de beneficiar-se cada vez mais no conhecimento de Deus e ficar mais inflamadas com o amor da sua verdadeira religião". Acreditando (erroneamente) que os "antigos pais" tinham previsto leitura diária sistemática de modo a cobrir "toda a Bíblia (ou a maior parte da mesma)" a cada ano para o povo, Cranmer eliminou todos os "hinos, responsórios, invitatórios e similares que efetivamente interrompiam o curso contínuo da leitura da Bíblia" . "As regras", segundo ele, eram "poucas e fáceis" e somente o livro de orações e a Bíblia eram necessários para conduzir os ofícios. A uniformidade nacional ficaria assegurada, uma vez que "todo o reino terá apenas um uso".

O esquema é bastante simples; os salmos são "lidos em sua totalidade uma vez por mês", vários a cada dia na oração da manhã e da noite, começando da frente no início do mês. A Bíblia é lida em sua totalidade na sequência (lectio continua), começando por Gênesis, Mateus e Romanos (Antigo Testamento e evangelho nas matinas, Antigo Testamento e epístola no Evensong). O restante do ofício consiste numa magistral combinação de elementos dos ofícios do Sarum Breviary. Estes incluem o Pai-Nosso, versículos, salmos com Gloria Patri, duas leituras bíblicas, cânticos, Kyrie, Credo, Pai-Nosso, versículos e três coletas de encerramento. Uma mudança ocorreu em 1552 com o acréscimo de um prelúdio penitencial que consistia em sentenças penitenciais da Escritura, num chamado à confissão, numa confissão geral e na absolvição. Precedentes para esta maneira de começar se encontram tanto em Quiñones (nas matinas) quanto nos reformadores do continente. Em 1662, orações adicionais e a previsão de um hino foram acrescentadas ao final dos ofícios. Uma grande tradição de ofícios diários cantados distingue o culto nas catedrais inglesas.

O sucesso de Cranmer foi indubitável. Com efeito, sua oração da manhã e da noite, além de proporcionar o ofício diário, tornou-se o culto dominical anglicano normal por 300 anos. A litania, a liturgia da palavra da ceia do Senhor e um sermão geralmente eram ajuntados à oração da manhã aos domingos até o séc. 19 adentro, causando certa redundância. Mas a piedade eucarística popular e a comunhão freqüente na Inglaterra tiveram que esperar pelos metodistas do séc. 18 e pelos tractarianos do séc. 19”.

Continua:

Os reformadores anglicanos tomaram decisões diferentes, uma vez que se beneficiaram de orientação gratuita, baseada em duas décadas de experiência com liturgias vernaculares, dos reformadores continentais. Sendo basicamente uma revisão conservadora da liturgia da palavra do Sarum, o rito de Cranmer de 1549 começava com um salmo de intróito, Pai-Nosso, oração de coleta por pureza, Kyrie, Gloria in excelsis, saudação, coleta do dia e coleta pelo rei . Seguem-se imediatamente a epístola e o evangelho, vindo a seguir o Credo Niceno e o sermão. O culto passa então para a exortação e a eucaristia. Dois elementos foram transplanta#dos para dentro da própria eucaristia: intercessões aparecem logo após o Sanctus, e a confissão vem antes da comunhão. Na versão de 1552 houve uma guinada na direção reformada: os salmos de intróito desapareceram e o Decálogo foi acrescentado imediatamente após a oração de coleta por pureza. As intercessões voltaram para logo após o sermão e as ofertas, e a confissão agora sucede as exortações, imediatamente antes do sursum corda. O Kyrie desapareceu e o Gloria in excelsis foi banido para imedia#tamente antes da bênção final na eucaristia. Uma rubrica previa a finalização do ofício após a oração geral de intercessão, quando não se celebrava a comunhão. Isto permitia separar a liturgia da palavra da eucaristia, após mil anos de unidade. Por três séculos esta "ante-comunhão" ou "segundo oficio" com sermão se seguiu à oração matutina e à litania na maioria dos domingos e a eucaristia não era celebrada com freqüência na maioria das igrejas paroquiais. Desde então esse padrão tem sido destrinchado gradativamente, ao longo dos anos”.

E ainda:

O primeiro Livro de Oração Comum anglicano, de 1549, trazia um rito de comunhão vernacular que era visivelmente uma mistura conservadora do rito Sarum da Inglaterra meridional com a teologia da Reforma. Boa parte da teologia eucarística do Livro de Oração Comum de 1549 era deliberadamente ambígua, permitindo interpretações tanto católicas quanto protestantes. Três anos mais tarde este rito foi substituído por outro que eliminou a maior parte da ambigüidade e implicou uma drástica reestruturação. O cânon foi segmentado em dois. A oblação foi colocada após a comunhão de modo a eliminar qualquer sentido tradicional de sacrifício. Apesar de alterações menores feitas em 1559, 1604 e 1662, aquilo que é basicamente o rito de 1552 continua em uso oficial na Inglaterra”.

Outro detalhe: alguns afirmam que utilizam o “Rito de Sarum” em suas celebrações, julgando assim celebrar segundo o “Rito Anglicano”. Em primeiro lugar, a Liturgia de Sarum é uma Liturgia pré-tridentina, portanto, anterior ao século XVI, sendo incorporado como um dos ritos latinos, variações do Rito Romano, tal qual os ritos bracarense e moçárabe, por exemplo. Era um rito usado na Diocese Salisbury e incorporado como Rito aprovado pela Igreja de Roma. Um rito romano, portanto. O que se chama hoje de “Uso Anglicano” é uma alternativa criada pelo Papa João Paulo II para paróquias que anteriormente foram anglicanas e se ligaram à Igreja de Roma, em 1980. É uma variante do Rito Romano e assemelha-se, por isso, à Missa Tridentina. Existem poucas paróquias desse rito, sendo que todas elas estão nos Estados Unidos da América (EUA). É portanto, absurdo litúrgico, histórico ou teológico chamar este rito de anglicano, pois não o é.

Sinceramente, creio que temos agora um momento especial na história do Anglicanismo. O Papa Bento XVI, através da constituição apostólica “Anglicanus Coetibus” abriu a oportunidade para “anglicanos” que tivessem o desejo de uma plena comunhão com a Sé Romana o pudessem fazê-lo. Mas ainda ali a maioria destes chamados “anglo-católicos” (e como vimos que não são, são pseudo-romanistas) não se sentiria a vontade, pois o Papa é um conservador e esses indivíduos são, em sua ampla maioria, liberais. Na verdade, temos uma contradição: como podem ser tradicionalistas (O Papa é um tradicionalista) e ao mesmo tempo liberais? É um parodoxo, mais um que vem nos desafiar.

Meus amados irmãos pseudo-romanistas: estamos na hora da decisão e Roma é um caminho alternativo, embora um caminho conservador. Quem sabe não é a hora de “sair do armário” e assumir seu romanismo? O mal que estas posturas fez ao Anglicanismo, e no Brasil, especialmente, é irremdiável. A Igreja Anglicana era promissora, crescente e missionária...hoje minoritária, desconhecida e marcada por um sincretismo com o romanismo, sem igual.

Portanto, não confundamos as coisas: a Liturgia Anglicana, conforme o Livro de Oração em Comum NÃO é igual à MISSA Romana. Se desejamos descobrir as características definitivas do Anglicanismo em questões de sua doutrina e ensino, então precisamos voltar, além do movimento de Oxford do século 19, aos inícios do Anglicanismo, aos escritos dos Reformadores do século 16.

No seu livro, “Richard Hooker e a Autoridade da Escritura, tradição e Razão” (Paternoster, 1997), Nigel Atkinson demonstra que Richard Hooker (1554-1600), reconhecido pelos Anglicanos como um dos seus teólogos mais importantes, não acreditava que as doutrinas e ensinos da Igreja da Inglaterra era uma via média entre os ensinos do Catolicismo Romano e os ensinos Reformados de Genebra. De feito, Atkinson demonstra que Hooker estava tanto ou mais convencido das doutrinas da Reforma como seus oponentes Puritanos.(cf. Robin G. Jordan).



quarta-feira, 30 de outubro de 2024

A Comunhão dos santos - Solenidade de todos os Santos - Uma visão Protestante

 

A COMUNHÃO DOS SANTOS

Existe uma única igreja em todo mundo: A Igreja UNA (porque é uma só, é o conjunto de todos e todas que creem em Jesus, de todas as denominações), SANTA (pois foi Deus que a fundou), CATÓLICA (que significa Universal, para todos os povos, em todos os tempos e em todos os lugares) e APOSTÓLICA (tem por fundamento a doutrina dos apóstolos, o que os apóstolos ensinaram). Esta Comunidade de Fiéis não se extingue com a morte, ou seja, continuamos a fazer parte desta Igreja mesmo depois que deixarmos este corpo mortal.

Isso significa que temos duas partes na Igreja de Jesus Cristo: a chamada IGREJA MILITANTE (nós, que estamos vivos) e a IGREJA TRIUNFANTE (aqueles e aquelas que estão com o Senhor, salvos por Jesus Cristo). E ambas as partes estão em Comunhão, não são duas igrejas separadas, mas uma só.

Cabe à Igreja Militante pregar o Evangelho, anunciar Jesus Cristo a todas as Nações, prestar culto público a Deus, ensinar as Escrituras, viver em santidade de vida, buscar os meios de graça (oração, leitura das Escrituras, Sacramentos e jejum) e praticar as obras de misericórdia ( dar pão a quem tem fome, dar água a quem tem sede, vestir os nus, cuidar dos necessitados, visitar os encarcerados, lutar pelos direitos humanos, enfim, amar ao próximo como a si mesmo). Nossa tarefa é árdua e urgente, principalmente neste mundo doente em que vivemos.

À Igreja Triunfante cabe adorar a Deus constantemente, louvar ao Senhor pela sua Graça que a salvou e interceder pela igreja militante. Isso não significa que devemos orar a eles pedindo intercessão, já que os mortos, segundo as Escrituras, não se comunicam com os vivos. Essa intercessão é a chamada Intercessão geral, ou seja, eles oram a Deus pedindo que sejamos vitoriosos em nossas lutas e fiéis na proclamação da Graça e do amor de Deus às pessoas. Assim fica plenamente estabelecida a Comunhão dos Santos.

E como vemos, no Credo, oramos pela Comunhão dos Santos. O grande teólogo Sumiu Takatsu escreve: "Primeiro, a localização da expressão Comunhão dos Santos no Credo. Ela se encontra na terceira cláusula (artigo), Creio no Espírito Santo. Por isso, ela não é uma cláusula independente. Ao contrário, a Comunhão dos Santos está na dependência do Espírito Santo e dele recebe não só o sentido, mas também a vida. O Espírito Santo atualiza a Palavra feita carne, Jesus Cristo, sua vida, morte e ressurreição, e a inauguração da Nova Criação, nova convivência, a comunhão com Deus e uns com outros.

Essa comunhão santa transcende a todas as barreiras humanas em torno de classificações como raça, nação, classe, conhecimento, cultura, sexo, em virtude da derrubada do muro de separação na morte e na ressurreição do Verbo feito carne e criou uma nova humanidade, (GI 3.27-29; Ef 2.14-22; 4.3-6; 1.17-23)

Essa Comunhão dos Santos é o povo reunido, convocado (ekklesia – assembleia) por Deus no poder do Espírito Santo como o Corpo de Cristo, Templo e comunhão do Espírito Santo não é limitada a um grupo de pessoas seletas, mas é destinada para todos, sem exceção, em todos os tempos. Essa totalidade abarca o todo das pessoas. Essa Comunhão é portadora e testemunha do todo do Evangelho (Jesus Cristo) para todos os povos. Em poucas palavras, esse é o sentido da catolicidade, em contraste com a posição dos gnósticos que diziam ser portadores do ensino essencial do Evangelho. Também, os gnósticos se apoiavam numa visão dualista do universo e da pessoa: material inferior e perdido e espiritual, superior e alvo da salvação. O conhecimento secreto, acreditavam, davam aos gnósticos o acesso ao caminho da libertação do material e alcançar o espiritual. Diga-se de passagem que essa questão é uma questão contemporânea quando os cristãos falam em material (carnal) versus espiritual e não levam a sério o todo da pessoa humana e a afirmação do credo de que um só e mesmo Deus é o Criador, Redentor e Santificador de todas as coisas. Essas afirmações do credo estão enraizadas na Bíblia e por ela inspiradas.

Diga-se de passagem que o ensino apostólico é aberto a todos e nada está reservada a uma elite é a indicação e, também, sinal de garantia da igualdade de todos da Igreja diante de Deus".

Michael Perham, outro grande teólogo, escreve: "Temos a comunhão uns com os outros; comunhão não só com os que vivem hoje, mas aqueles que nos precederam e com os que se encontram ainda atrás de nós. Os mortos em Cristo vivem. Eles vivem para Deus. Eles pensam em nós. Eles oram por nós. Considerem quanto próximo devemos estar uns com os outros, quando se diz que os mortos são imperfeitos sem nós. Uma verdade em uníssono com o que lemos de Cristo. O Senhor precisa deles. A Igreja que é seu Corpo, a Sua plenitude que completa (enche) tudo em todos. Todos são imperfeitos até que Cristo retome. Até os melhores são imperfeitos até a Ressurreição. Esta é a verdade sobre os santos. As antigas liturgias preservam o penhor dessa doutrina. O mais elevado dos santos figuram entre eles (os imperfeitos). Cristo intercede por eles e por nós no Céu."


A SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

O dia 1º de novembro é um marco significativo no calendário ocidental, reverberando com dualidades históricas e espirituais que fascinam crentes e estudiosos.

Celebrado como o Dia de Todos os Santos, essa data convida a uma reflexão contemplativa sobre a vida e legado dos santos cristãos, aqueles que, ao longo dos séculos, inspiraram gerações com suas virtudes de fé e altruísmo. É um momento para recordar, honrar e nutrir a conexão com o divino que transcende o véu da vida terrena.

É um momento para recordar, honrar e nutrir a conexão com o divino que transcende o véu da vida. Entretanto, na véspera desse dia, a Reforma Protestante também é lembrada como um momento crucial na história da Igreja, datando do ano de 1517, quando Martinho Lutero ousadamente afixou suas 95 teses na porta da igreja de Wittenberg.

Essa ação não apenas questionou as práticas corruptas da Igreja Romana, mas também iniciou uma revolução espiritual e teológica que desafiou as normas estabelecidas e convidou milhões a redescobrir a fé em suas formas mais puras. O 1º de novembro, portanto, não é apenas uma data de lembrança, mas um convite à introspecção e à luta pela verdade.

A celebração dos santos nos conecta à tradição e à comunidade, enquanto a lembrança da Reforma nos projeta para o futuro, nos desafiando a viver nossa fé com autenticidade e coragem.

Como alguém que participa de ambas as celebrações, sinto a poderosa intersecção entre honra e rebeldia; uma mescla de respeito ao passado e a busca de liberdade espiritual. Mergulhar neste dia é se permitir navegar nas ondas da espiritualidade cristã, onde cada oração e reflexão são uma legítima busca por significado, conexão e renovação da fé.

Que o 1º de novembro nos inspire a equilibrar o legado dos santos com o espírito ousado da Reforma, cultivando um entendimento profundo das raízes da nossa espiritualidade.

É o dia de lembrarmos os mártires, aqueles que morreram em nome da Verdade do Evangelho, não renunciando a sua fé. Homens e mulheres, notadamente no Império Romano, mas ainda hoje em alguns países onde há perseguição religiosa aos cristãos é presente, são lembrados aqui como exemplos e devemos ser gratos a Deus por suas vidas e legado.

Que Deus nos abençoe e nos faça refletir: somos nós também tão crentes a ponto de nos sacrificarmos por Cristo? Que poder o Evangelho tem na minha vida vida? Qual é de fato o meu testemunho perante o Senhor?

Que Deus tenha misericórdia de nós!

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

O pecado da omissão

O verbete omissão nos traz as seguintes acepções desta palavra: S.F. 1. ato ou efeito de não mencionar (algo ou alguém), de deixar de dizer, escrever ou fazer (algo). 2. ato ou efeito de deixar de lado, desprezar ou esquecer; preterição, esquecimento. Sendo assim, a omissão constitui também uma das formas de o pecado vir à lume, ao lado dos pensamentos, palavras e ações. Nossa liturgia, em uma de suas orações de confissão de pecados diz: “...pelo mal que temos feito e pelo bem que deixamos de praticar”. Isso é omissão.

Muito comum entre os cristãos, infelizmente, o pecado da omissão tem sido uma das causas de vermos tantas pessoas afastadas do Evangelho da Graça. Aqui, infelizmente, entramos numa área de extremos nos dias atuais, onde a advertência ou a simples exposição de um ponto de vista diverso passa a ser considerado como agressão ou violação às liberdades do outro. Portanto, em nome da boa vizinhança é melhor eu “deixar quieto” e ver o que acontece. No entanto, o Apóstolo Pedro chama a nossa atenção para isso. Ele diz: “Mas, ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos amedronteis, portanto, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados; antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo, porque, se for da vontade de Deus, é melhor que sofrais por praticardes o que é bom do que praticando o mal.” (I Pedro 3: 14-17) E, neste caso, praticar o mal é nos omitir. Lembremos que Pedro escreve estas palavras no contexto do primeiro século, onde havia enorme perseguição aos cristãos.

Em primeiro lugar, o Evangelho é uma boa nova e, como tal, deve ser espalhada, difundida, por quem nele acredita. Não esperemos que quem não acredita em Jesus e na sua mesagem seja dela portador. Não fomos chamados para sermos “agentes secretos” da fé, mas embaixadores de Cristo a todas as pessoas, anunciando a reconciliação de Deus com o mundo através de Jesus Cristo (II Co 5:18-20) - “Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus”. O anúncio do Evangelho pressupõe nossa crença nele como a verdade que liberta as pessoas das amarras do pecado e as conduz a uma nova vida com Cristo, deixando o Reino das trevas, numa verdadeira “operação de resgate” - “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl 1:13).

Se somos cristãos genuínos, também cremos que Jesus, o assunto central do Evangelho, é “O Caminho, A Verdade e A Vida” e que NINGUÉM vai ao Pai a não ser por Ele.(Jo 14,6). Portanto, não podemos acreditar que todos os caminhos levam a Deus. Essa é mais uma falácia religiosa do mundo moderno. Moro em Ribeirão Preto. Se quero ir para São Paulo, devo pegar a pista sul da Rodovia Anhanguera. Se eu for na direção norte, jamais chegarei a São Paulo, mas a Brasília. Estrada certa, rumo certo, destino certo. É assim que funciona. Vejamos o que diz Pedro diante do Sinédrio: “Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.” (Atos 4,11-12). Pedro diz que Jesus é a pedra rejeitada pelos construtores (religiosos). Sim, Jesus é maior do que qualquer religião, porque ele é o Caminho. E continua dizendo que salvação só existe no nome de Jesus e em nenhum outro nome – dê o nome que quiser: religião, boas obras, outros líderes religiosos… - não existe nenhum outro nome, além do nome de Jesus, que nos conduz à salvação de nossas almas.

Vejamos uma história, uma narrativa, que tem muito a nos ensinar. Muitos ao ler “o chamado de Samuel”, focam no “Eis-me aqui” ou “Fala porque teu servo ouve”, a resposta que o jovem deu a Deus. Mas o texto vai um pouco além. Nesse momento surge um “ministério paralelo” a serviço de Deus, o ministério profético, que denuncia a corrupção dos sacerdotes, dos reis e anuncia coisas duras à nação de Israel, pregando justiça, conversão e arrependimento. Samuel ouve de Deus que haveria punição para a casa do sacerdote Eli. Vejamos o que diz o Senhor: “ Naquele dia, suscitarei contra Eli tudo quanto tenho falado com respeito à sua casa; começarei e o cumprirei. Porque já lhe disse que julgarei a sua casa para sempre, pela iniquidade que ele bem conhecia, porque seus filhos se fizeram execráveis, e ele os não repreendeu.” (I Samuel 3:12,13). Os filhos de Eli se fizeram execráveis, dignos de repreensão, mas Eli não os repreendeu. Finéias e Hofni, filhos do sacerdote, não cumpriam a lei referente às ofertas apresentadas como sacrifício (I Sm 2:12-17). Eli sabia disso e não os repreendeu. Talvez pensasse “coitados dos meninos, que fardo pesado para eles”. Mas por não abrir-lhes os olhos, foram castigados. A omissão de seu pai causou-lhes a perda da Arca da Aliança para os filisteus e a morte dos dois rapazes. (I Sm 4,4).

O Apóstolo Paulo também trata desse tema tão terrível. Em Romanos 1:32 o Apóstolo dá um advertência: “Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem”. As coisas reprováveis e que poderiam afastar as pessoas de Deus aparecem nos versos 28 a 31. São consideradas como idolatria e por isso causam tanto mal espiritual aos que praticam. Mas Paulo diz que a Ira de Deus também se acende não só sobre os que as praticam, mas também àqueles que se omitem. “ Mas também aprovam os que assim procedem”...não denunciam, se omitem e, por isso, praticam os mesmos atos condenáveis por causa da sua omissão.

Outra coisa importante. A Bíblia não nos recomenda apenas a que nos afastemos do mal, mas também daquilo que tem a aparência do mal (I Ts 5:22). Apesar de termos uma liberdade sem limites, podemos todas as coisas, Cristo nos libertou para tudo, totalmente, (Romanos 8:1 e I Coríntios 6:12), isso não nos dá liberdade para a licensiosidade ou qualquer pecado. Tudo é lícito, mas nem tudo convém, nem a nós, nem aos outros a quem amamos e cabe-nos o dever de exortar, instruir, advertir.

Por fim, Efésios 5:11 nos afirma, categoricamente: “E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as.” Não ser cúmplice é não se omitir, mas profeticamente denunciar o que está errado, com amor.

Para encerrar: Irmãos e irmãs, principalmente os ministros e ministras ordenados e ordenadas, chamados ao ministério da palavra e dos sacramentos: sejamos fiéis ao Senhor e reflitamos sobre as nossas práticas. Saiamos da postura de “paz e amor” dos hippies. Almas são condenadas ao inferno todos os dias! Seguimos alguém (Jesus) que não foi condenado à morte porque era um cara legal, mas alguém que tinha compromisso com a verdade, que confrontava as pessoas com amor. Deixar as pessoas perecerem no inferno não é amor. Jesus foi morto porque queria tirar as pessoas de sua zona de conforto. Façamos o mesmo!

Falar em omissão não é algo aqui voltado apenas para uma vida de piedade e oração. Pecado não tem apenas uma esfera espiritual. De nada adianta denunciarmos os pecados contra a alma e não denunciarmos os pecados contra o corpo, os pecados sociais. Fomos chamados e chamadas para sermos profetas em nível integral. Denunciar os pecados como mentir ou praticar idolatria, mas também aqueles que destroem a dignidade das pessoas, causam fome, desemprego, subnutrição e falta de moradia. É enfrentar o Diabo nas almas e também nas estruturas sociais. Esse é o papel do Profeta. E de quanto profetismo precisamos no século XXI!

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  Em 31 de Outubro de 1517, Martinho Lutero afixou na porta da capela de Wittemberg 95 teses que gostaria de discutir com os teólogos católi...